Um Português em Angola: Perguntas e Respostas

Um Português em Angola: Perguntas e Respostas

27 April, 2019 0 By hugocaro

Neste post, não vos vou falar de truques, ou de dicas, ou de roteiros. Vou abrir o meu coração e responder da forma mais honesta que consigo às vossas inúmeras perguntas sobre Angola. Volta e meia, recebo umas quantas nas redes sociais. E juntei todas e vou responder a todas hoje, e agora. Quero que saibam que todas as respostas reportam à minha realidade, e à minha opinião. Talvez se falarem com outras pessoas as respostas serão completamente diferentes.

Eu sei que tinha dito que ia fazer um vídeo a responder a tudo, mas a verdade é que eu tentei, mas não resultou, então decidi escrever (acho que consigo transmitir melhor as minhas ideias e pensamentos assim), então vamos a isso:


“Sentes-te seguro aí?”

Esta é sempre a primeira pergunta.

Aprende-se a viver com a insegurança. Eu acho que é esta a expressão que melhor responde a essa pergunta. Angola não é o país mais seguro do mundo, e toda a gente sabe disso, no entanto, evitando andar sozinho à noite, tendo algum cuidado aprende-se a viver aqui.


“Tenho curiosidade sobre como são as viagens para Angola, é fácil chegar aí?”

Sim, é relativamente fácil. Estamos à distância de 8 horas de Portugal de avião com mais de dois voos diretos por dia, e uns tantos outros com escala.


“Já te aconteceu alguma coisa mais “assustadora” por aí?”

A verdade é que não. Em dois anos, nunca me aconteceu nada de ficar com o coração nas mãos. Mas já tive um ou dois episódios que senti receio. Posso contar um deles:

Uma vez precisei de ir ao banco, no centro da cidade de Luanda (onde há mais trânsito, e confusão) e estacionei o carro (logo aqui, vieram 4 ou 5 rapazes tentar ajudar-me a estacionar o carro). Quando saí do carro, questionaram-me onde ir, e eu respondi “Ao Banco Finibanco” – inclusive pedi indicações pois não sabia ao certo onde era. E até aqui tudo bem, quando regressei ao carro, já só lá estava um rapaz a “guardar” o carro, eu dei dinheiro a esse rapaz pela ajuda e entrei no carro. Quando olho para trás, tenho os outros 4 a quem não dei dinheiro a correr atrás do carro – o problema é que nem tinha como fugir porque estava numa fila.

Começaram a bater no vidro do carro, com alguma raiva de mim e a pedir para eu sair do carro, e a tentar abrir a porta do carro. A minha sorte foi que o condutor que estava atrás de mim saiu e ameaçou os rapazes que poderia partir para a violência, e eles acabaram por fugir. Quando volto a passar na mesma rua, colocam-se à frente do carro, e repetem o mesmo. Felizmente cansaram-se e o vidro resistiu às pancadas. No fim acabou tudo bem, mas tinha tudo para correr mal.


“Porque decidiste ir para Angola?”

O grande fator de decisão foi a aventura. Decidi deixar um emprego no qual era efetivo e tinha um salario dentro da média portuguesa, razoável, porque estava cansado de viver num quadrado. Precisava de aventura, e de sair da rotina, do “sempre-o-mesmo-todos-os-dias”, e a verdade é que correu muito bem. Neste momento sinto-me muito bem aqui, e não me arrependo da rotina que deixei por lá.


“Angola é um país caro?”

Muito. Quando cheguei cá tive um choque enorme. Estava a espera, porque já tinha lido, que era caro. Mas não estava à espera que Iogurtes custassem o equivalente a 5 euros. Ou que um jantar em média, num local médio, fosse 30 euros ou mais. No entanto, como tudo, aprendemos a viver com os preços e a saber onde comprar o quê e o que fazer ou não.

Apesar de ser um país riquíssimo (petróleo, diamantes, etc.) é um país com um desequilíbrio enorme. Não existe meia classe. Ou existem famílias com muito, muito, dinheiro, que ostentam imenso, ou no outro lado da estrada, há quem viva com nada. À distância de atravessar a estrada.


“Ajudas as crianças da rua?”

Vou ser sincero, (como disse que ia ser no inicio deste post): se estivermos a falar em termos monetários, dar dinheiro, admito que já ajudei mais. Neste momento, não dou dinheiro a ninguém que me pede na rua – no entanto, sempre que me ajudam a arrumar o carro ou engraxam os sapatos, eu ajudo, monetariamente – com certeza.

Mas o que normalmente acontece é que se pede dinheiro sem razão, e acreditem em mim, por dia são muitos miúdos e graúdos a pedir, então optei por resolver de outra forma: quando realmente vejo que são necessitados ofereço-me para comprar comida, ou material escolar. Dessa forma sei para onde o dinheiro foi direcionado, e sinto-me melhor desta forma.


“É um país bonito? Só vejo pobreza na internet”

É um país lindo! Nas pessoas! Nas paisagens! É uma pérola ainda por polir. A internet não faz jus ao país, mas vou deixar aqui em baixo algumas fotos que fazem. É um país lindo, escrevam o que vos digo que não digo da boca para fora 🙂


“Se os salários não acompanham os preços do país como é que os Angolanos conseguem viver aí?”

Apesar da língua ser a mesma (Português), a cultura é bem diferente. E para os Angolanos, musica, boa comida e a família valem mais do que o dinheiro.

Ou seja, vai ser raro encontrar um Angolano que reclame do estado atual do país. É uma população que aprendeu a viver com o que tem, e por si só, isso é suficiente. Ao contrário dos europeus, que se as coisas não correm como planeadas ou se o dinheiro não chega, cai o céu, e embrulhamo-nos numa nuvem de depressão.

Kuduro, bom funge e cuca (cerveja nacional – a melhor que provei até agora, por sinal) e família reunida. É o que se aprende aqui. Que no fim, isso é o que importa.


“O que fazes aí? A tua profissão?”

Eu sou ortoptista (orto…quê?) trabalho na área da saúde visual. Vim para cá, porque realmente existe a necessidade de mão de obra qualificada principalmente na área de técnicos de diagnostico e terapêutica. Apesar de aos poucos a educação nesse sentido tem sofrido imensas, e boas, melhorias, ainda não existe a minha licenciatura em Angola então vim para cá como expatriado.

Quem pensa em Angola é só festa e não se trabalha (esta é para ti, que tiveste uma proposta de emprego para cá, e andas à procura de informação. Já estive no teu lugar!) que se desengane. Em Angola trabalha-se, e muito. No meu primeiro emprego saía de casa às 8h15 e só voltava perto das 22h00 – sim, troquei de emprego no entretanto. O horário melhorou (bastante), no entanto, quem estiver a pensar vir para cá, prepare-se, vai trabalhar mais que em Portugal (claro está que falo no geral dos casos).

Depois do trabalho, o clima está sempre bom para ir beber uma cerveja ou jantar fora com os amigos, e isso já vale o tempo que gastamos a trabalhar! 🙂


O que é mais difícil para ti aí?

Não são as falhas de eletricidade (aprendemos a viver com elas), nem a falta de água potável na torneira (começamos a beber só água engarrafada), nem as falhas na saúde (existem boas estruturas privadas de saúde aqui).

É a ausência da família e dos amigos.

O sentimento que a vida lá continua, e que vocês estão longe e não podem presenciar todos os momentos. O sentimento de que viramos um telemóvel: uma videochamada no aniversário da mãe, um telefonema no aniversário do pai. A vida continua e nós é que partimos. Esta ausência, esta distância de 8 horas, e um continente que nos separa, isso é o mais difícil para mim.

O resto, aprende-se.

No meu caso, eu tive muita sorte em vir para cá com o meu melhor amigo, o que facilitou, em muito, a minha adaptação ao país. Aqui as amizades crescem mais rápido, não temos família cá, quem conhecemos torna-se a nossa “nova” família. Tudo é vivido muito intensamente. E passa tudo num instante.

Ao mesmo nível da dificuldade de deixar a família e amigos, uma vida do lado de lá do continente, é, volta e meia, vermos a família que fizemos cá a partir também. Por mudança de emprego, por mudança de vida, ou por retornar apenas ao país deles. É outra dor, completamente diferente da que sentimos quando partimos para aqui: É saber que a nossa nova família, também vai embora.

Aí pode chegar a solidão, e quando chega a solidão, ainda fica mais difícil. Parece que vive sempre um sentimento egoísta connosco: “eu não vou estar aqui para sempre… mas tu devias ficar até eu partir”

Por isso, já sabem, nem tudo são maravilhas.


“Já sofreste racismo?”

Já. Muitas vezes. Ao contrário do que pode parecer, a guerra terminou há muito pouco tempo, e ainda se sente: “Branco de m***”, “Volta para a tua terra que ninguém vos quer aqui”. É. Muitas vezes. Nestes casos eu sou complacente. Eu consigo compreender o porquê. E não recrimino. Portugal e Angola têm um passado muito presente que não foi dos melhores. E eu respeito.


“És feliz aí?”

Esta é a derradeira pergunta, e a derradeira resposta é: sim, estou!


Espero que tenham gostado deste post, bastante pessoal, com opiniões bastante pessoais sobre Angola, este país que tão bem me acolhe todos os dias. Não sou filho da terra, mas é como se fosse. Obrigado. Algumas perguntas foram deixadas de fora, mas poderão entrar nos comentários aqui em baixo se ainda quiserem saber mais alguma coisa, estou completamente ao dispor para vos responder! 🙂


Se quiserem conhecer mais sobre Angola, vejam aqui estes links:

ONDE COMER EM ANGOLA | LUBANGO | LUANDA


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